As 5.170 letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores !!!
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<> Ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo, só todos juntos sabemos alguma coisa <> PAULO FREIRE
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A moldura dos meus olhos

Carlos Conde / Túlio Pereira da Silva
Repertório de Manuel Fernandes

Quando ela chega à janela
Logo o olhar dela tudo alumia
Seus olhos são dois faróis
Que lembram sois durante o dia

No Bairro Alto onde mora
Ela que adora goivos, roseiras
É a graça, a formusura
Duma moldura de trepadeiras

Naquele primeiro andar
Da Travessa da Queimada
Mora a luz do meu olhar
Nos olhos da minha amada
O seu olhar encantador
Vivo, travesso, ladino
São duas rimas do amor
No fado do meu destino

Sem ela a noite persiste
Tem luz mais triste, cor mais sombria
Pois é quando o olhar dela
Chega à janela, que nasce o dia

Andou na marcha, bailou
Dançou, cantou fados, canções
E eu durante a noite toda
Dancei à roda de dois balões

Pensando à noite

Letra e música de Helder do Ó
Repertório de autor

O som da noite embalava a minha cama
Quando vesti de ti, meu pensamento
Ardia em mim aquele fogo, aquela chama
Desse desejo inflamado que sustento
       
Porque és a mentira que eu quisera verdade
És o meu tempo inteiro de saudade
És a razão que não tem razão de ser
És a vontade que eu tenho de te ter;
És a força que ainda me suporta
És quem eu quero ver quando abro a porta
És aquela maravilha que sonhei
És a canção que adoro e que não sei

No meu silêncio oiço o som da tua voz
Que me serviu de companhia a noite inteira
Trago comigo aquela mágoa que há em nós
E aquela estrela que foi nossa compnheira

És a música que me entra no ouvido
És o tema do meu cantar dolorido
És a espera impaciente mas esp’rançada
És o frio que sinto quando é madrugada;
És a felicidade porque há tanto espero 
És a minha vida toda porque eu quero

Minha mãe minha querida

Rui Rocha / Amadeu Ramim *fado zeca*
Repertório de Francisca Gomes

Eu quero que este fado seja o seu
Por tudo o que me deu nesta vida
Que seja agradecida como eu
Por ser eternamente a mais querida

Ser mãe não lhe bastou no dia a dia
O muto era para si tão pouco ou nada
Que dava tudo com tal alegria
Apenas por saber que era amada

O tempo fez mais forte o nosso amor
E cada abraço mais que só ternura
As lutas que travou sem temor
Fizeram-me sentir sempre segura

É minha mãe, e eu quero-lhe dizer
Cantando com carinho e emoção
O quanto é meu orgulho, meu viver
Meu mundo mundo, meu bater do coração

Canto de ternura

Sérgio Marques / Francisco José Marques *fado zé negro*
Repertório de Sérgio Marques                   

Se dizem do fado, louco
Deixem-me cantar um pouco
Pois eu gosto dele assim
Seja alegre ou magoado
Quero sentir no meu fado
A loucura que há em mim

E canto sempre a meu jeito
Mesmo quando neste peito
Habitam tristeza e dor
Que me importa essa loucura
Se é nele que encontro a cura
Para os meus males de amor ?

Se é louco então este fado
Que escutamos com agrado
Mesmo quando há pouca voz
Dendita seja a loucura
Deste canto de ternura
Loucos somos todos nós

Não vale a pena

Letra e música de João Nobre
Repertório de Carlos Ramos

Se este amor, chama apagada
Não é mais nada que uma lembrança
Nele queimei ilusões
Os meus sonhos, minha esperança

Se a fogueira já não arde
Agora é tarde, crê que é verdade
Em nós resta, quem diria
Apenas triste e fria
A cinza da saudade

Não vale a pena
Coração, basta de teima
Chama de amor que não queima
De nada serve atear
Não vale a pena
O amor é uma fogueira
Que só arde a vida inteira
Se tem lenha p’ra queimar

Muitas vezes o ciúme
Feriu como lume o nosso amor
Mas nem sempre a maior chama
É a que dá mais calor

Hoje resta abandonada
Chama apagada que emudeceu
E à lareira que a guardou
Olhando-a fria e só
Apenas tu e eu

Fado falado

Aníbal Nazaré / Nélson de Barros / António Barbosa

Fado triste… fado negro das vielas
Onde a noite quando passa leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz, voz inspirada duma raça
Que mundo em fora nos levou p’lo azul do mar
Se o fado se canta e chora, também se pode falar

Mãos doloridas na guitarra que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes, impacientes
Mãos desoladas e sombrias, desgraçadas, doentias
Onde há traição, ciume e morte
E um coração a bater forte

Uma história bem singela; bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão e a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude que a própria Rosa Maria
No dia de procissão da Senhora da Saúde

Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe, trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados

E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela de todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinhos, que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos debaixo da mesma cama

P’la janela da Emília entrava a lua
E a guitarra à esquina duma rua gemia, dolente a soluçar

E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra que desgarra a dor bizarra
Mãos frementes de desejo, impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado, a guitarra a afagar
Como um corpo de mulher para o despir e para o beijar

Mas um dia:
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua
Meu Deus, que sofrer aquele
O luar bate nas casas, o luar bate na rua
Mas não marca, mas não marca a sombra dele

Procurou-o como doida e ao voltar duma esquina
Viu-o a ele acompanhado, com outra ao lado de braço dado
Gingão, feliz, rufião, um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha o que resta dum cigarro

Lume e cinza na viela, ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela, a cinza no olhar dele

E então:
E o ciúme chegou como lume
Queimou o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio labareda atear 
A fogueira aumentar
Foi a visão infernal, a imagem do mal 
Que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou, que jurou e mentiu

Correm em vertigem num grito
Direito ao maldito que a há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha, tu tens que morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela, que paixão a sua
E cai um corpo sangrando nas pedras da rua

Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem 
E entendem sua dor
Mãos que não mentem quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar

E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou essas bocas febris
Foi um amor que voltou e a desgraça tocou 
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida de novo a surgir
Foi um amor que voltou, que voltou a sorrir

Há gargalhadas no ar 
E o sol a vibrar tem gritos de cor
Há alegria na viela 
E em cada janela renasce uma flor
Veio o perdão e depois 
Felizes os dois lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não falar-se o fado

Guitarra coração

Mário Rainho / Pedro Lima
Repertório de Joana Baeta / David Ventura

Lisboa já devia estar na cama
Mas vejo-a a esta hora ‘inda acordada
Porque uma voz na alma a reclama
Pra se perder d’amores na madrugada

É a voz dum coração que, acelerado,
Teimosamente, ao fado ainda se agarra
Ao último suspiro arrancado
Do velho coração duma guitarra

Guitarra, coração
Duma velhinha idade
As tuas cordas são
As veias da cidade
Se a mágoa no teu peito
É gemido que magoa
Choram os bairros a eito
Guitarra, coração desta Lisboa

Já se levanta o sol, meio ensonado
Quando a casa regressa, da noitada
Esta Lisboa qu’ainda cheira a fado
Um fado que lhe serve de almofada


Sossega o coração, mas não a chama
Até que o sono à alma lhe apareça
Dá voltas e mais voltas sobre a cama
Com o estribilho dum fado na cabeça

Umas quadras de saudade

Fernando Peres / Jaime Santos
Repertório de Maria Amélia Proença

Há quem julgue ser verdade
Que a saudade faz morrer
Eu vivo de ter saudade
E morro se a não tiver

A saudade é na verdade / O mal que sabe tão bem
Que às vezes sinto vontade / De ter saudade de alguém

O fado que a noite dá / É ter saudade sem querer
Um sonho que chegue e vá / Na saudade que vier

Querer à vida é querer mais tempo / Mais tempo a vida não faz
Saudade é tempo de tempo / Da saudade que me dás

Última carta

João Nobre / Acácio Gomes *fado bizarro*
Repertório de Francisco José

Em primeiro lugar que estejas bem
É todo o meu desejo e quanto a mim
Cá sofro o teu desprezo, o teu desdém
Mas não te quero mal por seres assim

Eu não merecia mais, fui um louco
Tão louco que cheguei a acreditar
Nos falsos madrigais da tua boca
No venenoso brilho desse olhar

E nunca mais insistas em pedir
As cartas que escreveste e não sentiste
Quero aprender com elas a mentir
Tal como tu com elas me mentiste

Maria da Madragoa

Domingos da Silva / Manuel Fernandes
Repertório de Manuel Fernandes

Maria da Madragoa / Olhos azuis cor do mar
Não há em toda a Lisboa / Mais fresco e bonito olhar

Tuas gargalhadas francas / Contém uma graça infinda
E o quebrar das tuas ancas / Mais graça te dão ainda

Maria, Maria, gaivota que voa
Nas ruas garridas da linda Lisboa
Escuta p’ra teu bem, donzela
Minha boneca engraçada;
Cautela, não dês ouvidos a quem
Fala muito e não diz nada

Vive a vida sem lamentos / Maria de olhos azuis
Apregoa aos quatro ventos / Toda a graça que possuis

Resistes em ironia / À maldade da desgraça
Não queiras perder, Maria / A graça da tua graça

Coração, se já morreste

José Luís Gordo / Direitos reservados
Repertório de Maria de Fé

Porque o olho quando o vejo
Porque o vejo sem olhar
Porque longe dos meus olhos
Andam os seus a lembrar

Mas se não amo, nem posso / Que pode então isto ser
Coração, se já morreste / Porque te sinto bater
E desconfio que vives
Sem tu nem eu o saber

Porque, tímida lhe falo / E dantes não era assim
Porque mal a voz lhe escuto / Não sei o que sinto em mim

Porque estremeço contente / Quando ele me estende a mão
Mas se às outras faz o mesmo / Porque é que não gosto então
Deveras que não me entendo
Não te entendo, coração

A Oliveira

Frederico de Brito / Miguel Ramos *fado oliveira*
Repertório de ?

Sentei-me à sombra fagueira
D'uma frondosa Oliveira
Posta à beira do caminho
Nem uma folha tremia
E no silêncio, eu ouvia-a
Murmurar muito baixinho

Foi um moço cavador
Que me pôs com todo o amor / Neste chão abençoado
E depois de estar criada
Eu dei-lhe o cabo da enxada / E o timão do seu arado

Quis dar-lhe a trave do lar
Dei-lhe a lenha p´ra queimar / Dei-lhe o azeite da ceia
Dava-lhe a sombra no estio
E em noite d'Inverno frio / Dava-lhe a luz da candeia

Vi-o velhinho e cansado
Dei-lhe o nodoso cajado / Mas, fosse lá p'lo que fosse
Farto da vida buscou-me
Veio a meus braços, mirou-me / E neste ramo, enforcou-se

Fado Francisca

Letra e música de Custódio Castelo
Repertório de Francisca Gomes                      

Foge a boca prá verdade
A quem o fado sentir
Se num verso de saudade
Saudade não existir
Sai alma p’la garganta
Saem gestos de emoção
Na voz de quem o canta
Com a voz do coração

À porta da minha história / Ficará este meu fado
Cuja cor e a memória / São presentes do passado

Deu-lhe a vida ser assim / Corrente calma do rio
Tejo a correr em mim / Por fim me acalma frio

À porta da minha história / Ficará este meu fado
Cuja cor e a memória / São presentes do passado
                                              
E sinto neste meu fado / A luz divina do céu
Refletindo em meu olhar / O fado que Deus me deu

É hora d’outro amor

Mário Raínho / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Fernando Jorge 

Debruçada no meu canto
Por encanto ou por quebranto
A noite estranha aguarela
Desenha-me a voz num fado
Verso alado, emoldurado,
Posto em minha alma à janela

Cá fora, silêncios, gritos
Aflitos, infinitos / De tanto amor sem pernoite
Nesta garganta um gemido
Quase perdido, sumido / Que se estende toda noite

Não te alteres coração
Pela emoção, pla paixão / Que dentro em mim te represa
Como é possível gostares
De m’empurrares, obrigares / A cantar quem me despreza


Compreendo as tuas dores
Os amores e desamores / Mas a vida é deste jeito
Se um amor, se vai embora
Se tanto demora é hora / 
De pôr, outro amor no peito

Fragata do Tio Bento

Helder do Ó / Casimiro Ramos *fado três bairros*
Repertório de Hélder do Ó

Fragata, rosa do rio
Ao sol, à chuva e ao frio
Sem fadiga nem canseira
Parece que estou a vê-la
Orgulhosa, de alta vela
À conquista da Ribeira

O patrão vem da lezíria
Troca palavras de gíria / P’lo sal da vida que traz
Tem nas mãos rugas de amor
E tempera com suor / As queixas que o rio lhe faz

Recordo-me do Tio Bento
Que em dias de pouco vento / Que não dava p’ra zarpar
Contava histórias da lida
Que o prenderam à vida / Com sonhos de alto mar

Meu Tejo, ficaste pobre
Sem a tua fragata nobre / Emblema desta cidade
À Ribeira já não voltas
A vida virou-te as costas / Deixaste em mim a saudade 

A rima desejada

José Fernandes Castro / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Maja
      
Rimei o nome que tens
Com o nome que te dei
E foi assim que gerei
Esta paixão que faz lei
Quando a meus braços não vens

Rimei teu sorriso terno / Com a ternura que sou
Mas a saudade aumentou
E agora não sei se vou / Aguentar este inferno

Rimei a tua beleza / Com a minha intuição
Hoje sou desilusão
Passando de mão em mão / Porque tenho a alma presa

Só não rimei a verdade / Que nos separa da vida
E assim, d’alma ferida
Trago a hora da partida / Fazendo lei na saudade

Amar assim

Mário Rainho / Raul Ferrão *fado alcantara*
Repertório de Maria Armanda

Espreguiça amor, sobre o meu corpo, o teu corpo
Para que fique absorto o meu olhar
Quero-te assim nos meus lençóis de cambraia
Como onda que desmaia na praia-mar

Seria a estrela do mar, fruto proibido,
Tu, um búzio ao meu ouvido, namorador
Os teus desejos, meu amor, doçura louca
São longos beijos na boca, versos d'amor

E assim nos antecede a noite
A tarde é pernoite e preliminar
Duma lua que já se adivinha
Sei não estar sozinha, sei que vou amar
Pela noite, até madrugada, não quero mais nada
Que correr o perigo
De discreta, (com teu corpo) apagar a lua
Quero ficar nua, sozinha contigo

Hora tardia, que para nós não é tarde
Enquanto esta chama arde de amor, paixão
Este arrepio de suor, que "desagrava"
Mas que não apaga a lava deste vulcão

Nasce a alvorada como um grito da manhã
Ainda há cores de romã em ti e em mim
Não diga o mundo que este amor não é sagrado
Que é vergonha, que é pecado, amar assim
Que é vergonha, que é pecado, amar assim

Remos partidos

Lima Brumon / Helena Moreira Viana
Repertório de  Mariette Pessanha

Enquanto me olhas sem nada dizer
Remordo as palavras que nunca te digo
Abraçam-se as ondas antes de morrer
Não posso abraçar-te, quero morrer contigo

Na minha tristeza baloiça-se o vento
E vivo a apagar meus passos na areia
Se tu me procuras a  todo o momento
Sou palha queimada, o fogo não me ateia

Quem sabe se os barcos de remos partidos
Encontram a rota
Da margem mais certa
Os ventos são sete, são cinco os sentidos
E nada resiste 
À solidão completa

Aquela gaivota que a outra encontrou
Na praia deserta com uma asa partida
Deixou suas asas, nunca mais voou
Cada vez mais triste, adia a fugida

A força do mundo puseste aos meus pés
Que tinham pisado só lama e poeira
Não sei quem procuras, mas sei bem quem és
São belas as rosas e há quem as não queira